Tuesday, January 12, 2010

Desenterrado...




Os erros desta vida foram o melhor que me aconteceu.

Certo de ter perdido a essência de momentos,
A força com que alinhava as coisas na minha direcção…
Vejo que muito se passa ante o meu olhar.
Nada faço para impedir ou impelir algo.
Desenterrado de um túmulo de tentativas, forçosamente, me questiono:
Se sentir não é tudo, porque não deixar-me morto?

Thursday, December 17, 2009

Viver o sonho...

Image by Dante_Mk (DeviantArt)

Dou comigo a pensar em planear uma vida...
Objectivos...
Desejos...
Dou comigo a lembrar os sonhos que foram vidas irrealizáveis...
Foram tantos!
Penso que cada sonho é uma vida da qual abdiquei, abdico ou abdicarei.
Que sentido faz viver-se duas vezes a mesma vida?
Nem todas foram realmente memoráveis para que deseje descrever uma em particular.
A tradução de tudo faz-se naquela hora em que nos acordam para almoçar:
[Levantamo-nos...
Tomamos um banho, eventualmente...
Caminhamos até à mesa...
Almoçamos...
Seguimos com algumas tarefas pendentes e...]
Acordamos.
Pois é...
Assim acontecem algumas vezes, não necessariamente desta forma...
E quando acordo, assim, percebo ter sonhado a realidade que me espera, aprazível ou não...
Acordo e, nessa hora, tenho perfeita noção de que me aguarda a repetição de tudo...
E deixa de fazer sentido viver qualquer sonho.

Wednesday, December 02, 2009

quero encostar-me à sombra das memórias iluminadas pela tua pele. quero encher a chuva de palavras melancólicas. quero dedos a atar-me na neve carnívora do teu cheiro. quero a sintaxe das questões rompendo as barreiras da inocência. quero o teu sangue a afastar os excessos do meu. quero - preciso - do calor do teu peito, do milagre dos teus lábios, do parar do tempo quando entras em mim com um bocado de carne que me despedaça. quero a ferocidade das membranas e orifícios de sangue num nó furioso a encher-me de mim mesma. eu quero o barro, o caos, a cicatriz no peito, o fogo silvestre da paixão na minha pele sombria, nos meus lábios maduros, no meu sexo expectante.

Tuesday, December 01, 2009

existem lagos profundos por dentro da grande dor da mulher. lagos onde a noite cai apertada pelas estrelas. lagos tristes cheios de lágrimas. lagos onde se afundam seios nas labaredas da água em favos de ternura. existem lagos de noite fria que me arrebatam na substância miraculosa dos limos, em centelhas de mãos na forma de coração.

Tuesday, October 27, 2009

A carta

Image by Hippie_stock (DeviantArt)


Caros amigos,

Estou doente.
Doente e sem perspectivas em vista… de melhorar.
Sempre estive doente. Toda a vida.
Sei-o agora.
Sei-o por cada dia em que vos agendei num tempo só meu para tentar que fosse um pouco vosso.
Por cada farrapo de tempo, por mais inútil que fosse, que perdi convosco e não comigo.
Estou doente.
Exteriorizo.
Sou um monstro e o meu sopro de vida é admiti-lo.
Não pedi existência. Incumbiram-me dela.
Não aguento mais esta pressão exercida pela soma dos erros que cometi.
Conheço o meu íntimo e os meus desejos, pelo que sei que não conseguirei aguentar a pressão dos erros que virei a cometer.
Mesmo agora já é demais.
Estou saturado. E por isso…
Meus amigos… abandono-vos.
Limpo-vos da minha agenda.
Não tenho tempo.

Monday, August 31, 2009

o reflexo que me olha fixamente do espelho não sente. vive por detrás dos olhos parados, da pele imaculada. aquele rosto que é, também, o meu tem a sorte leve das cinzas. não sente dor. tem a embriaguez de viver num corpo sem escombros, sem sombras. troco de lugar com o reflexo.

Imagem de Mariah

Friday, August 28, 2009

sui caedere

se pudesse pegar num punhal e retalhar a carne
retirar o sal às lágrimas que as torna reais
se pudesse polvilhar os dedos com as cinzas do encanto
trespassar a esperança vestida de realidade
se pudesse reinventar-me na margem da folha de papel
escrever-me a sangue, a sorte e a detalhe como arte
mas sonho esta incauta consciência
com o além de uma outra vida desejada
que se perdeu nas asas da infelicidade,
do azar, do erro, do temor
se pudesse apagava-me e vestia-me de lírio
para começar a manhã com o orvalho da inocência
se pudesse caligrafava-me como metáfora do tempo ardente
na biografia da raiz forte, carnada de centelhas à superfície de mim
mas mastigo todo o projecto de argila mesmo com o desacerto crónico
e a noite bate no silêncio do espaço no fluxo das sombras que carrego
se eu pudesse matava-me.



"A ideia do suicídio é um potente meio de conforto: com ela superamos muitas noites más."
Friedrich Nietzsche